Que economia pós Covid-19?
Por Antonio Mendes

 

O inesperado deflagrar do surto de Covid-19 nas últimas semanas alterou dramaticamente a realidade econômica mundial. Com este artigo pretendemos trazer luz sobre as principais tendências que devem surgir na retomada da economia pós surto

Resumo de conclusões

Decorrente do surto inesperado de COVID-19 que acometeu a economia mundial nas últimas semanas, antecipamos que 3 grandes forças irão mudar o ambiente econômico no mundo. Em particular:

  • A curva de transformação da economia que vinha acontecendo até recentemente com novos modelos de negócio disruptivos sendo introduzidos (mobilidade, comércio, financeiro, ...) será acelerada. Os negócios disruptivos irão surgir muito mais rápido, com base em digitalização, introdução de novas tecnologias de IA e Big Data e custo baixo; 


  • Novas formas de organização das cadeias de valor produtivas, das empresas e do trabalho irão surgir. Seguramente nos próximos anos se consolidarão as plataformas de colaboração, planejamento e coordenação com o objetivo de tornar a produção e o trabalho deslocalizado/distribuído e mais eficiente; 


  • A tendência de “mercado de 1”  que se vinha cristalizando nas empresas será fortemente reforçada. O consumidor irá ter uma experiência única permitida pela crescente digitalização dos modelos de negócio e acelerada pela preocupação com a saúde e ameaças de contaminação reforçando claramente a liberdade de escolha do cliente e tornando este muito mais especial para as organizações; 

Na minha perspectiva, uma mudança que já estava em curso, mas que poderia demorar 5 a 10 anos a acontecer pode desta forma ter sido muito acelerada e entrar em ebulição nos próximos meses. Socialmente, teremos o impacto de altas taxas de desemprego e o aumento da desigualdade social, agravadas pelo curto período que serão produzidas. O movimento que ocorreria em até 10 anos e daria tempo para um ajuste natural será condensado em alguns meses o que seguramente irá causar grandes convulsões sociais.
 

Introdução

O objetivo deste artigo é fornecer uma reflexão estratégica sobre os efeitos da COVID-19 na economia. Iremos procurar antecipar as grandes tendências na economia pós-COVID.

Importa desde já deixar claro que o objetivo não é fazer uma análise detalhada e profunda para cada setor. O foco deste artigo é identificar as principais forças que irão atuar em todos os setores da economia e terão um efeito profundo em cada um desses setores. Para as indústrias específicas deverá ser realizado um estudo aprofundado em cada setor. Este artigo pode servir como um framework para a realização desse estudo.

A tarefa que nos propomos é particularmente complexa já que estamos ainda no meio da pandemia e várias situações permanecem por clarear. Em particular:

  • Quanto tempo irá durar a quarentena e consequentemente o prejuízo no modelo de negócio das empresas?;

  • Como será o retorno da economia? Em que timing? E em que modelo? São variáveis claramente dependente do poder político que irá variar de município a município, estado a estado e país a país;

  • Uma outra variável dependente do Governo será seguramente o nível de intervenção dos governos na economia durante a pandemia e no pós-pandemia;

  • Finalmente, uma outra variável, o efeito do corona vírus e dos seus tratamentos. Apesar de estarmos avançando na pandemia ainda temos algumas incertezas: Existirão novos ciclos ou as pessoas ficarão imunes? Existirá tratamento seguro? Teremos uma vacina para imunizar as pessoas? 

No melhor cenário o impacto direto do vírus na economia será de 6 meses. Ainda assim, nesse cenário otimista os impactos serão profundos e duradouros.

Neste contexto, quais as forças em ação de maior magnitude irão ocorrer na economia? Este é o desafio que nos propomos responder nos próximos capítulos

Mercado consumidor: contexto pós COVID-19

Apesar de algumas incertezas, como exploramos no capítulo anterior, seguramente, existem várias mudanças na sociedade provocadas pelo surto de COVID-19. 

O surto deixou as pessoas em casa e as empresas tiveram de forma repentina de se adaptar a uma nova realidade. Um fator importante é que todos (pessoas e empresas) foram prejudicados na sua renda. Assim, um dos primeiros efeitos é a mudança de sensibilidade nas decisões econômicas dos players de mercado (cliente, investidor, empreendedor, ...) que vão nas suas decisões futuras procurar mais valor por menos dinheiro.

Ainda do lado financeiro, se antecipa uma clara falta de liquidez na economia. Apesar dos esforços dos governos para produzir essa liquidez, a paralisia da economia é longa e mesmo os governos serão forçados a procurar recursos no mercado. Competindo com empresas e pessoas físicas, aumentando seguramente o custo financeiro. Do lado da oferta, decorrente do cenário de incerteza também existirá no curto prazo a redução de recursos disponíveis no mercado.

Se em cada país as pessoas, empresas e seus patrimônios serão afetadas. No panorama global, também existirão grandes mudanças. Cada economia foi atingida de forma diferente. Decorrente do momento em que começou o isolamento, a sua duração, a efetividade dos incentivos do governo, a cultura do país, a forma de retomada da economia, ... existe um cenário de retomada particular para cada economia. E o cenário econômico global irá mudar, com alguns países e suas empresas saindo fortalecidos e outros em clara perda. Uma situação particular, que pode ser análise de outro artigo é o cenário competitivo EUA x China.

Adicionalmente, o corona vírus tem um efeito diferenciado em cada cidadão, com efeitos dramáticos em pacientes com problemas de saúde pré-existentes e sem grandes transtornos em crianças e pessoas de boa saúde. Seguramente, no futuro existirá uma maior consciência entre os cidadãos do mundo em relação à saúde e bem estar, trazendo investimentos para estas áreas e com mudanças de hábitos de todos. Em particular, por um período de transição mais ou menos longo que ainda é desconhecido a economia será regida por um contato mínimo entre as pessoas. As empresas e pessoas terão que evoluir para esta realidade de entrega de valor com o mínimo contato físico.

Finalmente, ocorrerá o aumento de litígios. Apesar de todo o esforço consciente das empresas responsáveis em facilitar as condições financeiras de acesso a seus produtos (ex. negociação de empréstimos).  Claramente, sairão desta pandemia muitas pessoas físicas e jurídicas inadimplentes ou com dificuldades de atender os seus compromissos. Nem todas as quebras de contratos que se seguirão irão ser resolvidas de forma negociada. Consequentemente, uma grande parte da energia das empresas e pessoas físicas será drenada nos próximos meses para a solução das pendências jurídicas que irão sobrar da crise.

Acelerar a disrupção

A economia pré COVID-19, já vinha evidenciando um claro movimento de disrupção. Várias empresas novas se estabeleceram no nosso dia-a-dia nos últimos 15 anos. Numa transformação econômica sem precedentes na história humana. Além dos grandes gigantes de tecnologia que se consolidaram como as empresas mais poderosas do planeta: Google, Microsoft, Facebook, Amazon, Apple, Samsung, Tencent, ... Novas empresas surgiram recentemente e se consolidaram nos segmentos em que atuam. Alguns exemplos, no comércio eletrônico a própria Amazon; no transporte a Uber; nos serviços financeiros várias fintech ameaçam a liderança de muitos anos dos Bancos e Financeiras tradicionais; nas entregas porta a porta Rappi e iFood mudam a nossa realidade rapidamente. Enfim, um sem número de unicórnios que brotam na nossa economia, com um efeito muito positivo com a consequente transformação das cadeias produtivas e  a criação de valor para o consumidor

Todos os setores em maior ou menor escala estão sentindo o efeito dessa disrupção, seja no presente ou como uma grande ameaça, conforme o estudo recente da consultoria Accenture.

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A parada da economia decorrente da quarentena que estamos vivendo, coloca muita pressão nas empresas e obriga a repensar a sua estratégia. Em face de pequenas crises ou mudanças de mercado, uma estratégia possível para as empresas “incumbents”, sempre foi a redução de custos ou a realização de pequenos ajustes organizacionais. Contudo, este não é o caso. Estamos enfrentando tempos que obrigaram algumas empresas a parar de produzir, vender, entregar, receber, ... além de trazer mudanças significativas no perfil dos seus clientes. 

O mercado que as empresas “incumbentes” irão encontrar na reabertura do mercado será muito distinto daquele que deixaram quando entramos em isolamento social. 


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Assim sendo, também para as empresas “incumbents” , não irá restar alternativa a mudar o seu modelo de negócios e se adaptar à nova realidade. Nesta nova realidade, seguramente existirão muito menos funcionários, menos recursos financeiros investidos e claramente muito mais tecnologia. O novo modelo de negócio terá de permitir competir com mais inteligência para reduzir custos, ter melhores produtos e conhecer melhor o cliente. Nestes particulares entram as novas tecnologias de Inteligência Artificial e Big Data.

Novas formas de organização do trabalho

O isolamento social que pessoas e negócios estão sendo submetidos irá contribuir decisivamente para que uma nova força se venha a estabelecer na economia. Novas formas de trabalho e de organização de empresas e cadeias de valor estão sendo testadas durante este período de isolamento social forçado. Adicionalmente, o período tem sido longo o suficiente para poder comprovar a efetividade destas novas ferramentas na gestão dos negócios. O sucesso destas aliado aos benefícios que trazem para os profissionais e às organizações conduzem à conclusão que o efeito é para durar e novas formas de organização do trabalho irão surgir. 

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As mesmas tecnologias testadas para a empresa podem ser ampliadas e aplicadas à cadeia de valor. O maior efeito da inserção destas novas tecnologias será um grande aumento de produtividade com a redução de desperdício de horas/homem em deslocamentos improdutivos e serviços administrativos com baixo valor agregado ao negócio. A nova ordem de organização do trabalho trará cadeias de valor muito mais eficientes e automáticas.

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Evolutivamente, se consegue antecipar uma nova forma de trabalhar com operações terceirizadas/automatizadas suportadas por uma (ou múltiplas) plataforma(s) de tecnologia que aliada à estratégia e capacidade de desenhar produtos e serviços são as principais vantagens competitivas das organizações. 

As grandes consequências desta nova forma de trabalhar serão o desemprego e a concentração de renda. Numa economia de mercado, os players melhor remunerados serão os que cuidam das atividades de maior valor agregado. Ou seja, os acionistas, empreendedores e executivos que promovam as fórmulas de sucesso. Estes são uma clara minoria no ambiente empresarial dentro de uma massa muito mais expressiva de trabalhadores na nossa economia. A grande massa de profissionais das empresas sofrerá com dois efeitos, a redução da renda média (já que as atividades ficam menos especializadas) e o desemprego decorrente do aumento de produtividade. O efeito é uma clara concentração de renda na mão de algumas pessoas.


Experiência do cliente

Também o comportamento do nosso cliente final está mudando. Nos últimos anos essas mudanças são significativas. O consumidor das nossas empresas não tem o desejo de posse de ativos ou produtos. Antes prefere o serviço associado. Deixou de ter a necessidade de possuir um imóvel e em alguns casos prefere o aluguel, com a flexibilidade de poder mudar de cidade ou mesmo de país a qualquer momento. Em outros casos, deixou de ter uma segunda residência de finais de semana e férias, para poder usufruir de mais lugares com novas experiências em locais distintos no seu lazer. Outro exemplo, o carro particular, em alguns casos o consumidor opta por não possuir, substituindo por carro alugado, serviços de aplicativo ou novas soluções de serviços de mobilidade (bike, patinete, ...). Enfim, vários exemplos seriam ainda possíveis.  Sem ter necessidade de possuir, os seus recursos podem ser usados para acesso a mais serviços e experiências. Esses serviços conectam vários clientes em experiências únicas e mais marcantes, criando vivências mais personalizadas. Envolvidos na experiência, os clientes estão mais disponíveis para pagar um preço premium sendo que procuram produtos de empresas sustentáveis e com impacto positivo na sociedade.

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É este cliente que foi submetido à experiência do isolamento social decorrente da COVID-19. Apesar de fortes restrições à sua liberdade de movimento, este cliente teve uma absoluta mordomia podendo receber tudo no conforto da sua casa. 

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A experiência de isolamento social por ter sido prolongada o suficiente deixará claramente marcas no padrão de consumo do consumidor final. Este cliente, irá querer usufruir no futuro das experiências positivas que teve no isolamento social. Para as empresas, será um desafio. Será um cliente claramente diferenciado: “mercado de 1”. Uso este termo para marcar a diferença. O mercado da empresa no futuro não é mais uma massa de clientes heterogênea e pouco definida. No futuro, o cliente é um indivíduo (não uma massa) tem nome e sobrenome, com necessidades e expectativas diferentes da massa e tem de ser tratado de forma única – “mercado de 1”.  Cada cliente querendo a sua experiência particular, com produtos diferentes, momentos diferentes e intensidades diferentes. 

Para atender este novo cliente que está surgindo mais uma vez a tecnologia é a solução. As tecnologias de Big Data permitirão armazenar grandes volumes de informação sobre o comportamento de cada cliente individualmente. Sendo que volumes de informação de grande dimensão serão gerados e só possível de ser analisados por técnicas e algoritmos de Inteligência Artificial.


Conclusão

No cenário pós isolamento social, novas forças irão atuar na economia, conforme apresentado neste artigo e todas elas convergem para a utilização de mais tecnologia pelas empresas, no aumento da produtividade e no médio prazo aumentar o desemprego na economia. 

Em 5 semanas de isolamento social, 24 milhões de americanos se inscreveram no seguro desemprego. Tais valores são absurdamente altos. Nas condições pré COVID-19, aderiam ao seguro desemprego em 5 semanas, 1 milhão de pessoas. E nas piores 5 semanas da grande recessão apenas 4 milhões de desempregados aderiram ao seguro desemprego. 

Perdas de empregos desta magnitude se traduzem numa taxa de desemprego na economia americana de 18,3%. Note-se que os EUA viviam num período antes da crise de aparente prosperidade econômica. Os dados de Fevereiro de 2020, registravam uma taxa de desemprego de 3,5%. Praticamente, emprego pleno.

O mercado de trabalho brasileiro é muito menos elástico que o mercado americano. Contudo, os ajustes terão de acontecer embora num tempo um pouco mais longo.

O outro efeito sublinhado no artigo, a disrupção de vários setores da economia, digitalização, terceirização e automação das atividades da cadeia de valor irá trazer uma concentração de renda nos acionistas, empresários e executivos que atuam nas atividades de maior valor agregado da cadeia em detrimento da grande massa de trabalhadores que verá os seus rendimentos reduzidos.

Concluindo, olhando o lado social, todos os 7,5 bilhões de habitantes do planeta Terra estão neste momento com um problema em comum – COVID-19. Talvez, o mais democrático de todos os problemas das últimas décadas porque ameaça realmente e igualmente todo o cidadão. Contudo, na vertente econômica, cada habitante tem as suas próprias ferramentas e claramente com recursos e expectativas diferentes. Alguns navegando na tormenta em pequenas canoas à deriva no oceano, frágeis e indefesos. Outros tripulando seguras embarcações que podem levar a um bom porto no futuro. O jogo da vida se encarrega de definir os rumos.

Elaborado por:

Company team

António Mendes

António Mendes é analista de estratégia. Apaixonado por tudo o que de bom o cérebro humano produz: ideias, reflexões, análises, pensamentos... 
É Engenheiro e Mestre em Engenharia de Sistemas, MBA e OPM pela HBS. Ex-consultor da McKinsey, empreendedor, se preocupa atualmente com a estratégia de negócios disruptivos, sustentáveis e de impacto.

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